O LIVRO DA RESISTÊNCIA
47 anos de memórias • 2057-3001
"Enquanto houver quem escreva, haverá quem lembre."
15 DE MARÇO DE 2057
D. Jurema, 24 anos
"Hoje vi a primeira pessoa ficar branca. Era seu Antônio, do mercado.
Começou com uma manchinha no braço ontem. Em três dias, ficou completamente branco.
Os olhos ficaram vermelhos, brilhando no escuro. Ele não reconhecia mais ninguém.
Tivemos que trancar ele no quarto. Não sei o que fazer. Rezamos o terço a noite toda."
📍 Cidade de Deus
23 DE AGOSTO DE 2078
D. Jurema, 45 anos
"O governo construiu o muro hoje. Isolaram a Cidade de Deus do resto do Rio.
Dizem que é para conter os Brancos. Mas é um muro para nos prender aqui.
Os que tentaram pular viraram comida dos monstros. Agora somos por nossa conta.
Jorge organizou os primeiros vigias. Começou a resistência sem saber."
📍 Igreja, Cidade de Deus
7 DE JANEIRO DE 2095
D. Jurema, 62 anos
"Os Brancos evoluíram. Agora eles imitam vozes. O Jorge perdeu o irmão mais novo assim.
Chamaram ele pelo nome, ele saiu correndo. Era uma armadilha.
Enterramos o corpo hoje. Só restaram 200 de nós. Mas não vamos desistir.
Comecei a escrever tudo num caderno. Para que não esqueçam."
📍 Associação
31 DE DEZEMBRO DE 2099
D. Jurema, 66 anos
"Ano novo na resistência. Não tem fogos, não tem festa. O silêncio é nossa proteção.
Mas eu me lembro dos fogos, do barulho, das cores no céu.
Escrevo para que alguém, um dia, saiba como era. Não podemos esquecer quem fomos.
Que venha 2100. Que venham mais anos de resistência."
📍 Cidade de Deus
20 DE FEVEREIRO DE 3001
D. Jurema (idade incerta)
"Perdi a conta dos anos. Mas não perdi a memória. Ainda lembro do cheiro do pão do seu Antônio,
do som do rádio, das crianças jogando bola. Hoje um jovem me perguntou o que era uma bola.
Ensinei ele. No campo abandonado, rolei uma bola de meia. Ele sorriu.
Enquanto houver quem ensine, há esperança. Meu caderno agora tem 47 anos de histórias.
Entreguei para Marcos continuar. A resistência vive."
📍 Igreja, Cidade de Deus
"A memória é a única arma contra o esquecimento."
— D. Jurema, Arquivista da Resistência